A resposta curta
Walter Ulbricht, o líder da Alemanha Oriental, numa entrevista coletiva internacional em Berlim Oriental, em 15 de junho de 1961. Em alemão: “Niemand hat die Absicht, eine Mauer zu errichten.” A repórter nem tinha falado em muro. Ulbricht pressionava Moscou havia meses para poder fechar a fronteira, e o arame subiu dois meses depois.
Revisado em
A pergunta que não falava em muro
Junho de 1961 foi um mês tenso em Berlim. Desde 1958, Kruschev exigia que Berlim Ocidental virasse uma “cidade livre” desmilitarizada, e na cúpula de Viena, em 3 e 4 de junho, ele voltou a pressionar John F. Kennedy, agora com prazo até o fim do ano. Enquanto isso, a fuga de alemães orientais crescia semana a semana.
Em 15 de junho, Walter Ulbricht, chefe do partido no poder e do Conselho de Estado da Alemanha Oriental, deu uma entrevista coletiva internacional em Berlim Oriental. Annamarie Doherr, correspondente do jornal Frankfurter Rundschau, da Alemanha Ocidental, perguntou se a tal cidade livre significava que a fronteira de Estado seria instalada no Portão de Brandemburgo. Ela perguntou sobre uma fronteira. Ulbricht respondeu sobre um muro.
Ele disse entender a pergunta assim: havia gente na Alemanha Ocidental querendo que os operários da construção civil de Berlim Oriental fossem mobilizados para erguer um muro. Ele não sabia de nenhuma intenção desse tipo, e esses operários estavam ocupados construindo moradias. E então veio a frase:
Ninguém tem a intenção de construir um muro.
No original: Niemand hat die Absicht, eine Mauer zu errichten. Cinquenta e nove dias depois, o arame subiu.
O que ele fazia nos bastidores
Hoje os historiadores sabem, pelos arquivos da Alemanha Oriental e da União Soviética, que Ulbricht passou meses insistindo com Moscou para fechar a fronteira e que Kruschev o segurou. A última palavra era de Moscou. Em 1º de agosto de 1961, Kruschev deu sinal verde: “Ponha em prática quando quiser, podemos estar prontos a qualquer momento.”
Os líderes dos países do Pacto de Varsóvia, reunidos em Moscou de 3 a 5 de agosto, aprovaram o plano. Em Berlim Oriental, a operação, de codinome Rosa, ficou a cargo de Erich Honecker, então secretário do Comitê Central para assuntos de segurança. Pouquíssima gente sabia. Muitos dos policiais, soldados e milicianos que estenderam o arame na noite de 12 para 13 de agosto só ficaram sabendo da missão naquela mesma noite. Dois dias depois, um dos guardas da nova linha pulou por cima dela: Conrad Schumann.
Uma frase que virou ditado
A frase está entre as mais conhecidas da história política alemã. Os alemães a citam, quase sempre com ironia, toda vez que um desmentido oficial soa como anúncio. Foi um ato falho que entregou o plano ou uma mentira dita com calma? Ninguém pode provar o que Ulbricht tinha na cabeça. A transcrição mostra uma coisa simples: a palavra muro saiu da boca dele, não da repórter.
Quem foi Walter Ulbricht
Ulbricht nasceu em Leipzig, em 1893, entrou para o Partido Comunista Alemão pouco depois da fundação e passou o período nazista no exílio, boa parte em Moscou. Voltou em 1945, nos últimos dias da guerra, à frente de uma pequena equipe de comunistas alemães, o Grupo Ulbricht, e montou o partido que governaria a Alemanha Oriental. Nos anos em que governou vieram o levante de 17 de junho de 1953, esmagado por tanques soviéticos, o longo êxodo e, por fim, o Muro, que ele sempre defendeu como escudo contra o Ocidente.
Em 1971, os próprios companheiros do Politburo, com o aval de Moscou, o substituíram por Honecker, o homem que tinha organizado o Muro. Ulbricht morreu em 1º de agosto de 1973, exatamente doze anos depois do sinal verde de Kruschev. Por que o arame valia esse risco para ele é o tema de Por que o Muro de Berlim foi construído?
Fontes
- Walter Ulbricht, entrevista coletiva internacional, Berlim Oriental, 15 de junho de 1961 (transcrição em Dokumente zur Deutschlandpolitik, série IV, vol. 6, 1975, p. 925 e seguintes)
- Registro da conversa entre Kruschev e Ulbricht, 1º de agosto de 1961 (arquivos soviéticos)
- Hope M. Harrison, Driving the Soviets up the Wall: Soviet-East German Relations, 1953–1961 (2003)
- Frederick Taylor, The Berlin Wall: A World Divided, 1961–1989 (2006)